Aprendendo e ensinando

16/10/2010

VENCENDO A DEPRESSÃO PELA PRÁTICA DO BEM

Pela segunda vez, visitamos uma família composta da mulher, Lúcia (os nomes são fictícios, mas o caso é real), o marido e três filhos: Sofia, a maior, com 16 anos, um garoto de cerca de 6 anos e uma garotinha de 1 ano e pouco. Moram todos num cômodo (com no máximo uns 8 metros quadrados), sem divisória interna, num cortiço onde moram outras famílias assistidas.

Quando chegamos, Lúcia nos recebeu com um sorriso amplo e acolhedor, dizendo "Deus que enviou vocês!" e parecendo aliviada com nossa visita inesperada (as famílias sabem que serão visitadas, mas não em qual sábado iremos).

A lição do Evangelho de hoje que Gil havia aberto "ao acaso", na nossa prece inicial na Sto. Amaro, era o trecho do Evangelho de Mateus (cap. 6, versículos 1 a 4), sobre fazer o bem sem ostentação e sem esperar gratidão, do qual reproduzo os versículos 2 a 4:

"Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita; assim a tua esmola se fará em segredo, e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á."

A lição caiu como uma luva para Lúcia. Ela estava triste e ansiosa por causa de ingratidões de pessoas a quem muito ajudara. Sílvia a conhece bem e me diz que Lúcia ajuda muito o próximo, não apenas os vizinhos do cortiço onde mora, mas até de outros. Lembro-me que, quando a visitamos, ela havia acabado de entregar à vizinha o filho pequeno desta, que cuidara enquanto a mãe havia saído e não o pudera levar. E fizera isto espontaneamente, sem pagamento, oferecendo-se para ajudar ao perceber a necessidade da vizinha.

Lúcia ajuda até mesmo em situações difíceis para ela, como foi um caso ocorrido há cerca de dois anos. Nessa ocasião, uma vizinha idosa passou muito mal e Lúcia a atendeu. Quando estava com a idosa, esta faleceu. Lúcia, então, tomou as providências necessárias para o encaminhamento do corpo, o atestado de óbito e o enterro. E, na época, tinha muito medo de defuntos...! Este caso ilustra bem a sua personalidade.

Foi pouco depois deste caso que Lúcia procurou o programa de assistência social da FEESP, incentivada por amigas que já estavam participando do programa. Chegou lá com muito medo de "ver espíritos", algo para ela algo tão amedrontador como defuntos, ou até mais. Participando do programa, aprendendo e participando nos grupos de apoio e orientação, começou a entender melhor tudo isto e a perder esses medos.

No diálogo a partir da leitura do trecho do Evangelho, expôs as suas mágoas e frustrações, e nós, Sílvia, Gil e eu, procuramos ajudá-la a compreender os acontecimentos à luz do Evangelho. Conversando em cima da realidade em que ela vive, lembrando-lhe que seu amor ao próximo era parte essencial do que ela era, da sua alegria, disposição em ajudar e da força que a ajudava a superar constante a depressão que muitas vezes a ameaça.

No decorrer da conversa, Lúcia foi se libertando das mágoas, sentindo-se mais aliviada, mais livre. Por suas manifestações, pelo que falava, percebemos que havia compreendido profundamente a lição do Evangelho, que caíra como um bálsamo no sua alma angustiada.

Durante todo o Evangelho, Sofia, sua filha mais velha, permaneceu calada, mas com um lindo e tranquilo sorriso iluminando seu rosto e o ambiente à sua volta. Sofia sofre, desde muito pequena, de Poliomelite (paralisia infantil), que atrofiou ambas as pernas, pés e parcialmente as mãos, mas sua mente é lúcida. Na ocasião anterior em que lá estivemos, Sofia conversou conosco, sempre otimista e com seu lindo sorriso. Neste sábado agora, permaneceu silenciosa, mas com uma vibração tranquila e apoiadora.

Lúcia sofre de transtorno depressivo recorrente (depressão) e está tomando antidepressivos. Vendo, porém, sua força, seu amor e disposição em ajudar o próximo, a alegria e simpatia de Sofia e da filhinha menor, senti-me pequeno. E pensei também em pessoas que conheço, com boas condições financeiras e sociais, apoio familiar, inteligência, cultura, que se queixam de depressão, tomam os antidepressivos mais avançados (e caros), fazem terapia, mas acham que não estão preparadas para ajudar o próximo. Não aprenderam (ou talvez tenham se esquecido) que a grande terapia para a depressão é "sair de si mesmo" ajudando o próximo.

Isto não quer dizer que o transtorno depressivo seja algo ilusório. As pesquisas científicas mostram que depressão tem raízes tanto orgânicas como comportamentais. Mas, tenho aprendido, na vida e pela prática clínica, que o trabalho voluntário de ajuda ao próximo, feito com boa vontade, é um dos medicamentos mais eficazes (talvez o mais) no combate à depressão.


Escrito por H. Leonel às 17h42
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